sábado, 10 de novembro de 2012

Das influências.

Ainda hei de entender a influência que os dias chuvosos têm sobre nós,meros aspirantes ao cargo de escritas.É claro que existem inúmeras outras influências a serem consideradas, afinal de contas, sempre existe um raio de sol atrevido gerando arco-íris na água que cai do chuveiro ou mostrando as impurezas flutuantes do ar. Somos influenciados também por dias corriqueiros, por café com chantilly, por sonhos desprovidos de nexo, por latões e lixos, por gatos e pássaros (as malas também costumam ser de grande efeito inspiracional). Estas são as influências diretas: me obrigam a escrever seja lá o que for, onde for, simplesmente porque estou inspirada. Às indiretas, eu atribuo nomes. Nomes de autores, livros, poemas, crônicas, prosas, versos. De Saramago à Lispector, de Rilke a Murilo Mendes. Eternizados em minha alma e nas palavras proferidas por ela.
Ainda assim, todas elas não são tão eficazes quanto os dias chuvosos. Estes sim, têm poder total. O tamborilar da chuva aflora o âmago do ser, e o cinza das nuvens causa comichões nas pontas dos dedos. A caneta e o papel se tornam a companhia indispensável, vital. O antagonismo se faz presente, pois é nos dias de chuva que escrevemos sobre os dias ensolarados. É na fria melancolia que escrevemos sobre o aconchego do calor. Escrevemos também palavras aleatórias, na vã tentativa de justificar as brumas da mente, que às vezes, se solidificam em letras.


"Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite:"Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, a dizer o que vê, vive, ama e perde. (...)"

Rainer Maria Rilke, "Cartas para um jovem poeta".

Nenhum comentário:

Postar um comentário