Lixos poéticos.
É noite. Dois gatos brincam (ou será que brigam?), saltando muros e escalando
árvores. Além da corrida frenética dos felinos, tudo está em perfeita calma. As
flores cochilam com o suave ninar da brisa noturna, as casas adormecem atrás
das cortinas e venezianas, e dentro delas, as pessoas suspiram e resmungam,
envoltas na delícia que é sonhar. Os gatos derrubam um latão de lixo, e o
estrondo metálico ecoa pela rua pacata, fazendo com que os seus causadores
pulem outros muros e escalem outras árvores, a fim de reencontrarem o silêncio
em outras ruas. Se eles tivessem
permanecido junto ao latão tombado, perceberiam uma jovem virar a esquina e
percorrer a rua. Ela anda distraída, mas com passos rápidos. Veste uma calça
jeans rasgada, um tênis sujo e um casaco de lã, destoando-se completamente das
casas grandes e bonitas. Não que ela se
importe...
Se atrapalha com o fone de ouvido e com as volumosas apostilas na hora de pegar
a chave na bolsa colorida, e ao abrir o portão, seus olhos refletem vagamente o
latão caído, sem registrarem a cena de fato.
Ela passa pelo jardim, sem nem dar atenção ao cochilo das flores. Abre a
porta da casa, sem nem perceber o sono profundo de seu interior. Vai
diretamente ao banheiro, escova os dentes, apaga a luz do corredor e entra em
seu quarto. A desordem é total, mas
tampouco repara no guarda-roupa remexido, nos papéis espalhados e no lixo
acumulado. Despe-se lentamente e coloca um blusão masculino. Seu reflexo no
grande espelho oval a atrai, e ela finalmente fixa seu olhar em alguma coisa.
Antes não o tivesse feito. A surpresa é estampada em seu rosto. Ela demora
alguns segundos para entender que aquilo era no que havia se
transformado. Sua bonita sobrancelha sucumbia ao descaso, e abaixo dos olhos
marcas arroxeadas denunciavam a falta de sono e o excesso de choro. Ela estava
nitidamente mais gorda, e suas unhas, antes impecáveis, há muito tempo se
encontravam roídas e sangrentas.
O que mais a surpreendeu foi seu cabelo: ele sempre foi rebelde e desgrenhado,
mas nunca tão... morto. O mais doloroso, no entanto, foi deparar-se com a
própria tristeza, com o próprio olhar melancólico, com o próprio lábio mordido
pelas várias tentativas de conter o choro em público. Quem era aquela? E porque ela sofria?-foram
as mudas perguntas do espelho.
Ela já sabia todos os porquês, mas devia uma resposta ao seu reflexo indagador.
Sendo assim, deixou-se cair na cama acolchoada, pegou um dos muitos papéis
espalhados e começou a escrever. Escreveu sobre a vida. Sobre suas tristezas e
alegrias, sobre seu presente, suas saudades e suas expectativas. Escreveu sobre
seus amores e sobre seus medos. Escreveu
sobre as flores, sobre os gatos, sobre as casas e sobre uma rua adormecida.
Escreveu sobre si mesma. E quando cansou
de escrever, quando esgotou seus pensamentos em folhas de papel, começou a ler
o que lá estava. Enquanto lia, os pensamentos reorganizavam-se, organizando com
eles os sentimentos. Pela primeira vez
em muito tempo, a garota sorriu (É uma pena que ninguém estivesse
observando!). Seus olhos brilharam, sua
face ganhou um leve tom róseo e o espelho devolveu o sorriso.
Se os gatos tivessem permanecido junto ao latão de lixo tombado, teriam visto a
moça levar o lixo lá fora, de manhã bem cedinho. Não existiam mais olheiras, e
suas unhas estavam pintadas. Ainda
vestia o blusão masculino, mas só por causa das boas lembranças nele incrustadas. Teriam visto quando seus olhos refletiram novamente o latão
tombado, e quando ela o levantou. Mas os gatos pulavam em outros muros e
escalavam outras árvores...
E além disso, não gostavam do barulho dos latões quando estes tombavam.
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