sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Lixos poéticos.

É noite. Dois gatos brincam (ou será que brigam?), saltando muros e escalando árvores. Além da corrida frenética dos felinos, tudo está em perfeita calma. As flores cochilam com o suave ninar da brisa noturna, as casas adormecem atrás das cortinas e venezianas, e dentro delas, as pessoas suspiram e resmungam, envoltas na delícia que é sonhar. Os gatos derrubam um latão de lixo, e o estrondo metálico ecoa pela rua pacata, fazendo com que os seus causadores pulem outros muros e escalem outras árvores, a fim de reencontrarem o silêncio em outras ruas.  Se eles tivessem permanecido junto ao latão tombado, perceberiam uma jovem virar a esquina e percorrer a rua. Ela anda distraída, mas com passos rápidos. Veste uma calça jeans rasgada, um tênis sujo e um casaco de lã, destoando-se completamente das casas grandes e  bonitas. Não que ela se importe...
Se atrapalha com o fone de ouvido e com as volumosas apostilas na hora de pegar a chave na bolsa colorida, e ao abrir o portão, seus olhos refletem vagamente o latão caído, sem registrarem a cena de fato.  Ela passa pelo jardim, sem nem dar atenção ao cochilo das flores. Abre a porta da casa, sem nem perceber o sono profundo de seu interior. Vai diretamente ao banheiro, escova os dentes, apaga a luz do corredor e entra em seu quarto.  A desordem é total, mas tampouco repara no guarda-roupa remexido, nos papéis espalhados e no lixo acumulado. Despe-se lentamente e coloca um blusão masculino. Seu reflexo no grande espelho oval a atrai, e ela finalmente fixa seu olhar em alguma coisa. Antes não o tivesse feito. A surpresa é estampada em seu rosto. Ela demora alguns segundos para entender que aquilo era no que havia se transformado. Sua bonita sobrancelha sucumbia ao descaso, e abaixo dos olhos marcas arroxeadas denunciavam a falta de sono e o excesso de choro. Ela estava nitidamente mais gorda, e suas unhas, antes impecáveis, há muito tempo se encontravam roídas e sangrentas.
O que mais a surpreendeu foi seu cabelo: ele sempre foi rebelde e desgrenhado, mas nunca tão... morto. O mais doloroso, no entanto, foi deparar-se com a própria tristeza, com o próprio olhar melancólico, com o próprio lábio mordido pelas várias tentativas de conter o choro em público.  Quem era aquela? E porque ela sofria?-foram as mudas perguntas do espelho.
Ela já sabia todos os porquês, mas devia uma resposta ao seu reflexo indagador. Sendo assim, deixou-se cair na cama acolchoada, pegou um dos muitos papéis espalhados e começou a escrever. Escreveu sobre a vida. Sobre suas tristezas e alegrias, sobre seu presente, suas saudades e suas expectativas. Escreveu sobre seus amores e sobre seus medos.  Escreveu sobre as flores, sobre os gatos, sobre as casas e sobre uma rua adormecida. Escreveu sobre si mesma.  E quando cansou de escrever, quando esgotou seus pensamentos em folhas de papel, começou a ler o que lá estava. Enquanto lia, os pensamentos reorganizavam-se, organizando com eles os sentimentos.  Pela primeira vez em muito tempo, a garota sorriu (É uma pena que ninguém estivesse observando!).  Seus olhos brilharam, sua face ganhou um leve tom róseo e o espelho devolveu o sorriso.
Se os gatos tivessem permanecido junto ao latão de lixo tombado, teriam visto a moça levar o lixo lá fora, de manhã bem cedinho. Não existiam mais olheiras, e suas unhas estavam pintadas.  Ainda vestia o blusão masculino, mas só por causa das boas lembranças nele incrustadas. Teriam visto quando seus olhos refletiram novamente o latão tombado, e quando ela o levantou. Mas os gatos pulavam em outros muros e escalavam outras árvores...
E além disso, não gostavam do barulho dos latões quando estes tombavam. 

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